Jose Luis Peixoto
“…Passou tempo e eu não esperava que, um dia, chegasses. Mas passou tempo. Um dia, chegaste.

Caminhávamos na rua. Eu pensava em qualquer coisa que não era a ideia de chegares,

como uma avalanche que arrasta tudo à sua passagem, como uma multidão a pisar cada pedaço

de terra. E a rua ficou deserta quando nos aproximámos. Éramos desconhecidos no instante

em que olhámos um para o outro. Passou esse instante e, dentro de nós conhecemo-nos.

Chegaste. Eu não te esperava. Contigo trouxeste a ternura, o desejo e, mais tarde, o medo.

Chegaste e eu não conhecia essa ternura, esse desejo. Em casa, no meu quarto, neste quarto,

revi os teus olhos na memória, a ternura, o desejo. E, depois, aquilo que eu sabia, o medo.

E passou tempo. Eu e tu sentimos esse tempo a passar mas, quando nos encontrámos de novo,

soubemos que não nos tínhamos separado…”

José Luis Peixoto

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